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Artigos sobre música e adoração na igreja
​por Elcio Portugal

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Música e o Culto Cristão
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            O culto do Deus vivo e a música caminham de mãos dadas desde a antiguidade.  Isso não é novidade.  Tanto assim que os temas música, louvor e adoração se entrelaçam de tal maneira, a ponto de serem profundamente confundidos.
            Como crentes proclamamos e recitamos frequentemente o nosso lema que a Bíblia é a Palavra de Deus, e que ela é a nossa única regra de fé e prática.  E isso eu também creio plenamente!  Mas creio também que chegou a hora de colocar a realidade destas verdades  à prova também em nossas práticas musicais no culto.
            Em uma série de curtos artigos, iremos examinar as nossas terminologias assim como o nosso entendimento dos propósitos da música, observando as opiniões e avaliações feitas através dos séculos, tudo isso abaixo da lupa da Palavra de Deus.  Vamos juntos nesta jornada?  Eu convido você a acompanhar esta série, na qual teremos artigos de curta metragem, mas que o levarão a pensar e repensar posições quanto ao uso da música em louvor e adoração a Deus.
            Para iniciar a nossa abordagem destes temas, gostaria de levantar a questão do foco da adoração para a sua consideração.  O professor da Biola University (uma instituição cristã) na Califórnia,  nos alerta quanto à ênfase correta ao lidar com este tema: “Assegure-se que Deus seja o foco principal da adoração, não a música.  Deus deve ser primordial – não a execução musical, o estilo ou a instrumentação.  Na nossa era, as pessoas igualam adoração com música: se a música é boa, então a adoração é boa”.[1] 
            Paul Washer em uma entrevista, cita Jeff Pollard da Mt. Zion Bible Church, que diz: “Na questão da música e da adoração, nós seres humanos frequentemente associamos certos tipos de música com a adoração.  Um  dos grandes problemas é que, quando um certo estilo se encontra arraigado nas nossas mentes como parte da adoração, e nós só correspondemos (ou respondemos) emocionalmente a este tipo de música, nós confluimos finalmente numa adoração de nós mesmos, em vez de de Deus.  Queremos nos sentir de uma forma em particular a qual associamos como adoração, e então, se a batida produz este sentimento, ou mesmo se uma música do século 16 o faz, para nós só isso dá o sentido de adoração.   A tragédia é que, se temos simplesmente algo que atiça as nossas emoções, não importa que se trate de algo legítimo ou não.  Nós muitas vezes nos tornamos adoradores de nós mesmos.  Não adoramos a Deus – estamos adorando o sentimento que temos sobre Deus”.[2] 
            Então lhes deixo estas perguntas para a sua meditação: Quem é o foco da sua adoração? Será que estamos adorando a adoração? Estamos adorando verdadeiramente a Deus?  Que o Senhor nos abra o entendimento e que Cristo seja TUDO em TODOS.

Elcio Portugal
B. M. e M.M.
Ministro de Música da Igreja Batista do Bom Retiro, Ipatinga, MG
7 de julho de 2015

[1] Liesch, Barry Wayne (2001-04-01). The New Worship: Straight Talk on Music and the Church (A Nova Adoração: Conversa Direta sobre Música e a Igreja) (pp. 101-102). Baker Publishing Group. Kindle Edition.  Tradução: Elcio Portugal.
[2] Citação de Jeff Pollard feita por Paul Washer no vídeo Music in Worship (Música na Adoração) : https://www.youtube.com/watch?v=XeDQ58OXle8#t=103 (acesso em 12 de outubro de 2014), transcrição e tradução: Elcio Portugal


  
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Adoração: Essência e Forma
 
            Tendo sido desafiados a desatar este cordão mental que associa adoração e louvor à música, ou mesmo a um estilo musical específico, é importante então estabelecer definições para cada um dos termos mencionados.  Neste artigo, desejo que voltemos a refletir sobre o termo “adoração”,  buscando ver que relação existe entre ela e a música.
            No Antigo Testamento mais de uma palavra é usada no hebraico para expressar os sentidos do termo adoração.  Elas descrevem principalmente gestos externos de prostração perante um superior, assim como a ideia de serviço e obediência.  O Novo Testamento expressa o significado de adoração pela palavra προσκυνεω (proskuneo),  a qual se refere ao ato de beijar e se prostrar em profunda reverência.  O número de definições em existência que tentam explicar sucintamente o que significa adoração é enorme, mas em essência, a maioria dos estudantes da Palavra de Deus identificam o seu sentido de uma maneira holística, isso é, que a adoração é praticada em todas as áreas e tempos da vida, e não é limitada a um ritual que denominamos de culto.  O renomado pastor e autor John Piper oferece a seguinte definição para o termo: “A essência da adoração . . . é o ato interior de valorizar a Deus no seu coração como tesouro.  As formas externas de adoração são atos que se faz para demonstrar ou refletir o quanto o coração valoriza a Deus”.[1]   
            “No livro Christian Worship: Its Theology and Practice (O Culto Cristão: Sua Teologia e Prática),[2]  os autores Franklin Segler e Randall Bradley acompanham o ato de adoração (culto) desde seu início no Antigo Testamento, e revelam uma evolução de uma forma bem simples até os rituais elaborados do Templo.  Uma das armadilhas humanas nas quais muitos leitores da Bíblia caem, é de interpretar um ato descrito na Bíblia como prescritivo (uma fórmula para ser seguida em estrita exatidão) e não como descritivo, (apenas uma narrativa em uma situação pontual), como é frequentemente o caso.  O ato de prostrar-se identificava a atitude de adoração para o leitor dos textos na antiguidade.  Porém, apesar desta  postura ainda ser frequentemente usada, os atos de adoração em nossos tempos estão firmemente “atados” muito mais enfaticamente a formas de cânticos, assim como o elevar das mãos, o fechar os olhos, ou mesmo ao período específico no culto,  quando os cânticos estão sendo entoados de maneira repetitiva.  Se fossemos interpretar as palavras bíblicas como prescritivas, estas formas ou expressões que usamos estariam incorretas, pois a verdadeira adoração somente existiria se nos prostrassemos físicamente!!”
            Concordo com John Piper, entre inúmeros outros intérpretes bíblicos, que faz distinção entre formas de adoração e a adoração em si.  A declaração do Senhor Jesus à mulher samaritana, encontrada em João 4:23, diz que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai “em espírito e em verdade”.  Cristo também afirma, contradizendo a opinião em voga entre os judeus, que esta adoração não estaria mais ligada a um local, mesmo este tendo sido anteriormente escolhido por Deus mesmo!  Ele não fala das formas de expressão, mas se refere à sua essência, à sua raiz e à sua genuidade. 
            Adoremos o nosso Pai! Entreguemos a nossa vida com corações sinceros, valorizando Quem Ele é em Sua essência, e o que isso significa para as nossas vidas.  Esta adoração estará acontecendo quando andamos com Deus, seja qual for a atividade na qual estejamos envolvidos – o nosso Rei seja glorificado nela! Quando caminhamos, dirigimos, trabalhamos, nos divertimos, adoremos o nosso Pai.  Quando oramos, nos prostramos, lemos Sua Palavra, meditamos nela para que Ela se manifeste nas nossas vidas, e até quando cantamos salmos, hinos e cantos espirituais,  por meio de todas estas e outras formas adoremos o Pai com base nestes dois dos dois alicerces: espírito e verdade!

Elcio Portugal
B. M. e M.M.
Ministro de Música da Igreja Batista do Bom Retiro, Ipatinga, MG
9 de julho de 2015
031-98631-1939
 

[1] John Piper, citado por Ron Man em Worship Notes (Anotações sobre Adoração) sob o título “Quotables”, Volume 3, Número 7 de julho de 2008.
[2] Franklin M. Segler e Randall Bradley, rev.  Understanding, Preparing for, and Practicing Christian Worship (Compreendendo, Preparando-se e Praticando o Culto Cristão) 3a edição, (Nashville: Broadman & Holman Publishers), 2006.


  
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Alicerces da Adoração
 
            No evangelho de João, no capítulo 4, encontra-se o relato bem conhecido do encontro entre  Jesus e uma mulher samaritana.  Sentando-se junto ao poço, o Senhor Jesus iniciou  uma conversa com uma mulher que havia chegado para buscar água.  Este encontro nos proporciona um entendimento sobre os relacionamentos entre os judeus e os samaritanos, assim como uma perspectiva geral dos seus conceitos religiosos.  Naquele contexto Cristo apresentou-se como o Messias e nos ajuda hoje a entender sobre a verdadeira adoração:

“Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos; porque a salvação vem dos judeus.   Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.  Deus é Espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”. (João 4:21-24)
 
            Jesus esclareceu no seu diálogo que a adoração não dependeria de um local, mas de certas atitudes.  Entende-se então que a verdadeira adoração presupõe conhecimento dAquele que é adorado, e que é necessário que esta adoração contenha dois alicerces: “que seja em espírito e que seja em verdade”.  Como entender estes termos?
            Certos intérpretes optam por entender os termos espírito e verdade como referências específicas à pessoa Divina, que é espírito e é (a) verdade.  Porém, eu creio que Jesus referiu-se especificamente a certas condições ou atitudes necessárias para que a adoração seja agradável a Deus.  Assim, entendo que a adoração tem uma fonte espiritual e não é identificada de forma absoluta com nenhuma prática ritual externa que envolva a forma como ela se expressa ou a um local específico.  Ela depende fundamentalmente de um novo nascimento que ocorre mediante fé em Cristo, no qual o indivíduo alcança a vida eterna.  O adorador neste sentido, está em uma posição espiritual aos olhos de Deus, sendo assim o espírito do crente comunica-se com o Espírito de Deus.
            Adorar em verdade representa pelo menos dois significados: que uma adoração autêntica a Deus não é dirigida a uma entidade divina imaginária, mas é aquele que sabe realmente quem é a pessoa verdadeiramente revelada como sendo DEUS! É uma adoração fundamentada na verdade e não na imaginação do adorador – Jesus Cristo como Filho de Deus, o Seu eterno Pai, e o Espírito de Deus que habita no crente.  O termo “em verdade” também  se refere à autenticidade da adoração.  Adoração não é uma coisa emprestada dos pais, de um pastor, de um líder de louvor, ou de qualquer outra personalidade religiosa.  A forma destas outras pessoas adorarem também não nos asseguram a aceitação do Pai.  A nossa adoração precisa ser genuina e não uma mímica.  Não é necessário (nem melhor) estilizar os cânticos exatamente como eles são feitos numa gravação, ou repetir as mesmas ministrações que algum(a) cantor(a) faz.  Já decidi a não julgar estilos pessoais de expressão pelos meus padrões e expectativas pessoais, mas considero questionável a prática de imitar cantores gospel conhecidos.  Se o estilo deles é genuíno, louvado seja Deus, mas se achamos que adoramos o nosso Senhor melhor se fizermos exatamente ou igualmente como estes famosos, estamos nos enganando.  Deus se interessa por cada um de nós, tendo nos criado de maneira única, e deseja-nos ter como adoradores genuínos e sinceros.
            Finalmente, faço mais uma observação: a expressão em português “em espírito e em verdade” une os dois conceitos através de uma única preposição (“em”) na língua original.  Seria literalmente: “em espírito e verdade”.  Sem desejar impôr uma importância indevida a este detalhe, digo porém que Cristo sem dúvida sugere aqui que não é possível adorar o Pai somente em espírito e não em verdade, ou tampouco em verdade mas não em espírito.  Estes alicérces são imprecindíveis para o agrado do Senhor, e eles devem ser o fundamento da nossa adoração, independemente dos nossos modelos ou formas particulares de expressão. 
 
Elcio Portugal
B. M. e M.M.
Ministro de Música da Igreja Batista do Bom Retiro, Ipatinga, MG
22 de julho de 2015
031-98631-1939
 
  
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Louvai a Deus!
           
            Que Deus seja louvado! Dizemos isso de uma forma ou outra tanto na igreja, em pequenos grupos, em conversas particulares, tanto em nossas orações como em cânticos.  Como sugeri anteriormente, louvor e adoração, junto com o veículo da música, criam quase que uma trindade inseparável.  Louvor não é idêntico a  cânticos.  O Salmo 148, por exemplo, chama até aos astros para que louvem ao Senhor – obviamente sem a instrumentalidade da música.  Mas por que louvamos também por meio de cânticos? E o que significa realmente a palavra “louvor”?
            Semelhante ao termo em Latim (laudare), o verbo louvar e o seu substantivo louvor indicam o ato de comendar ou elogiar alguém.  Isso pode se referir tanto a um ser humano como a Deus.  Mas já que a revelação de Deus veio principalmente por meio do Hebraico e do Grego, creio ser importante entender a dimensão do termo nestas línguas.  O Hebraico utiliza principalmente quatro palavras que refletem os vários aspectos da nossa palavra louvar.  Elas são: Halal (pense-se em ‘aleluia’ – Louvai a Deus), indicando uma apresentação de Deus ou uma celebração da Sua existência ou caráter; Yadah (proveniente da palavra hebraica significando “mão”) que indica uma postura de mãos alçadas dando graças; Barak, a qual indica ajoelhar-se, dando o sentido de saudar e abençoar; e também Zamar (ex. Salmo 68:4 – “. . . cantai louvores ao seu nome,”) que em uma palavra indica um canto tocado (instrumental) acompanhado por canto.  O Grego utiliza um número menor de palavras que foram traduzidas como “louvor”.  São quase exclusivamente usados os verbos αινω (aino) e επαινω (epaino) – a diferença entre elas sendo o prefixo epi.[1]   Semelhantemente à palavra louvar em português, estes verbos indicam o ato de comendar alguém por um ato ou por seu caráter.  Encontra-se no Novo Testamento também a palavra υμνεω (himneo) que traduz-se também como cantar louvores – sim, esta é a palavra raiz do termo “hino”.
            Agora, o que fazer com estes conceitos? O que acontece é que quando dizemos que estamos louvando a Deus, estamos na realidade agregando várias ideias: estamos comendando nosso Deus, elogiando Ele, celebrando aquilo que Ele fez (e também faz e fará), saudando e abençoando a pessoa dEle.  Isso fazemos, interessantemente, não exclusivamente a sós com o Senhor, mas propositalmente também na presença de outros.  O elogio (louvor) a Deus não é só para ser feito em particular, mas preferivelmente de forma pública.  Por isso, quando louvamos, nos dirijimos a Deus elogiando a Ele, e, quase sem exceção, nos voltamos ao público que nos ouve para conversar sobre as maravilhas do nosso Deus.  Mesmo a palavra “aleluia”, um termo usado globalmente, na realidade é também um chamado feito aos que nos ouvem para que, juntamente conosco, louvem a Deus.[2]
            Para esta conversa chamada louvor, a música é perfeitamente adequada.  Ela é um veículo unificador que conecta o cantor e/ou o instrumentista com Deus, falando a linguagem dos seus corações e ao mesmo tempo comunicando a glória do Senhor com os ouvintes de uma forma atrativa, exaltando a beleza dAquele que estamos louvando.  Vários textos bíblicos nos indicam que podemos realizar esta conversa (louvor) por meio da música.  Por isso desejamos nos aprofundar no sentido e no potencial desta arte que Deus nos deu, para que por meio dela possamos recomendar o Senhor Todo Poderoso aos que estão ao nosso redor, apresentando quem Ele é, abençoando o Seu nome e os chamando para unirem-se ao Seu povo dando glória a Deus. Que Deus seja louvado! Aleluia!![3]
           
Elcio Portugal, B. M. e M.M.
Ministro de Música da Igreja Batista do Bom Retiro, Ipatinga, MG
30/07 – 08/08 de 2015
031-98631-1939
 

[1] As definições de palavras bíblicas neste parágrafo são provenientes dos dicionários de Hebraico e Grego de James Strong.  Ver: James Strong, S.T.D. LL. D. Hebrew and Greek Dictionaries (Dicionários de Hebraico e Grego) derivado da Concordância Exaustiva pelo mesmo autor. 1890.
 [2] Salmos 104, 106, 111, 112, 113, 115, 116, 135, 146, 147, 148, 149, 150
[3] Louvai a Deus!